Vingadores: Ultimato e a construção do maior evento da Marvel nos cinemas
Vingadores: Ultimato reuniu 11 anos de histórias da Marvel em um fenômeno mundial. Relembre a construção, os bastidores e o impacto do filme.
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Quando Vingadores: Ultimato chegou aos cinemas em abril de 2019, havia algo incomum acontecendo ao redor de um filme de super-heróis. A expectativa não vinha apenas da promessa de uma grande batalha ou da presença de alguns dos personagens mais populares da cultura pop. Para milhões de espectadores, aquela estreia representava o momento de descobrir o destino de heróis acompanhados durante mais de uma década. A Marvel havia transformado filmes individuais em capítulos de uma narrativa compartilhada e agora colocava grande parte desse universo diante de um mesmo ponto de chegada. Oficialmente apresentado pelo próprio estúdio como a conclusão de uma trajetória formada por 22 filmes, Ultimato carregava uma responsabilidade que dificilmente poderia ser medida apenas pelo tamanho de sua produção.
Essa história havia começado onze anos antes, em condições bastante diferentes. Quando Homem de Ferro estreou em 2008, Tony Stark ainda não fazia parte de uma franquia cinematográfica com dezenas de personagens interligados. O que existia era a possibilidade de construir algo maior, ideia simbolizada pela aparição de Nick Fury e pela menção à Iniciativa Vingadores. Aos poucos, a Marvel passou a apresentar personagens em filmes próprios e a permitir que acontecimentos de uma produção interferissem em outra. O Incrível Hulk, Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador prepararam o terreno até que Os Vingadores, em 2012, mostrou que aquela estratégia poderia funcionar em uma escala muito maior.
A reunião de Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, Viúva Negra e Gavião Arqueiro mudou a dimensão do projeto. A partir daquele momento, a continuidade deixou de funcionar apenas como uma curiosidade para quem assistia às cenas pós-créditos. Ela se tornou parte do próprio funcionamento do Universo Cinematográfico Marvel. Tony Stark continuava carregando as consequências de suas decisões de um filme para outro, Steve Rogers precisava encontrar seu lugar em um mundo diferente daquele que conhecia, Thor transitava entre os conflitos de Asgard e da Terra, enquanto novos personagens ampliavam os limites daquele universo. Quando Guardiões da Galáxia levou a franquia definitivamente para o espaço, em 2014, ficou ainda mais claro que a Marvel pretendia conectar histórias que, à primeira vista, pareciam distantes.
Foi também nesse processo que as Joias do Infinito ganharam importância. Elementos apresentados em produções diferentes começaram a formar uma narrativa maior em torno de Thanos, personagem mostrado brevemente após Os Vingadores e desenvolvido aos poucos até ocupar o centro de Vingadores: Guerra Infinita. A estratégia exigia paciência. Em vez de apresentar e resolver a ameaça dentro de um único longa, a Marvel permitiu que sua presença atravessasse anos de histórias. Quando Thanos finalmente entrou em confronto direto com os heróis em 2018, o público já conhecia praticamente todas as peças daquele tabuleiro.
Guerra Infinita tomou então uma decisão fundamental para que Ultimato pudesse existir da maneira como existiu: deixou os heróis perderem. Thanos reuniu as seis Joias, completou seu plano e eliminou metade da vida do universo. O encerramento contrariava a estrutura mais confortável de grande parte dos blockbusters, nos quais a ameaça pode parecer devastadora, mas normalmente é neutralizada antes dos créditos. Aqui, personagens como Homem-Aranha, Pantera Negra, Doutor Estranho e vários Guardiões da Galáxia simplesmente desapareceram. A derrota não era apenas um gancho para a continuação. Ela mudava completamente o ponto de partida do filme seguinte.


Onze anos de histórias precisavam caber em um único encerramento
A dimensão de Ultimato não estava apenas na quantidade de personagens. O desafio dos diretores Anthony e Joe Russo e dos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely era encontrar uma maneira de concluir histórias que haviam começado muito antes de eles assumirem os filmes dos Vingadores. O planejamento dessa reta final já vinha sendo desenvolvido havia anos. Markus e McFeely revelaram posteriormente que trabalhavam nas trajetórias finais de Tony Stark e Steve Rogers desde 2015, durante o período de Capitão América: Guerra Civil. As mortes e despedidas, portanto, não foram simplesmente decisões tomadas para provocar impacto no último momento. Elas faziam parte de uma reflexão sobre onde aqueles personagens deveriam chegar.
Essa preocupação ajuda a entender por que Ultimato não começa tentando superar imediatamente o espetáculo de Guerra Infinita. Depois que os Vingadores encontram Thanos e descobrem que as Joias foram destruídas, o filme avança cinco anos. É uma escolha importante porque transforma a derrota anterior em algo permanente dentro da vida daqueles personagens. O mundo continuou existindo, mas não conseguiu simplesmente retornar ao normal. Steve Rogers participa de encontros com sobreviventes, Natasha tenta manter o que restou dos Vingadores funcionando, Clint Barton reage à perda da família seguindo um caminho violento, Thor carrega a culpa por acreditar que poderia ter impedido o estalo e Tony Stark constrói uma família justamente depois de passar anos obcecado com a possibilidade de uma ameaça que ele não conseguiria deter.
Nesse ponto, o tamanho do Universo Marvel deixa de ser apenas uma vantagem comercial e passa a servir ao drama. O espectador conhece o Tony que entrou em uma caverna no Afeganistão em Homem de Ferro, o Steve que se lançou sobre uma granada antes mesmo de receber o soro do supersoldado e a Natasha que passou anos tentando compensar seu passado. Quando Ultimato coloca esses personagens diante de suas últimas grandes decisões, existe um histórico acumulado que um único filme dificilmente conseguiria produzir sozinho.
A solução narrativa encontrada para desfazer o estalo também permitiu que a Marvel transformasse esse passado em parte da própria história. Com o retorno de Scott Lang do Reino Quântico, surge a possibilidade de viajar a momentos anteriores e recuperar as Joias antes que Thanos as reunisse. Em outras circunstâncias, revisitar cenas de filmes antigos poderia funcionar apenas como nostalgia. Em Ultimato, porém, a viagem pelo tempo serve também para confrontar os personagens com aquilo que eles foram.
A Nova York de 2012 é o exemplo mais evidente. O espectador retorna à batalha do primeiro Vingadores, mas agora acompanha os acontecimentos pelos bastidores. Tony encontra uma versão anterior de si mesmo, o Capitão América precisa enfrentar seu próprio equivalente do passado e Hulk observa uma fase muito diferente de sua trajetória. O filme retorna ainda a Asgard durante os acontecimentos de Thor: O Mundo Sombrio e ao período de Guardiões da Galáxia. Em vez de simplesmente mencionar os filmes anteriores, Ultimato entra novamente neles. Onze anos de continuidade tornam-se matéria-prima para o roteiro.
Esse retorno ao passado ganha um peso especial quando Thor encontra sua mãe, Frigga, pouco antes da morte dela, enquanto Tony viaja para 1970 e conversa com seu pai, Howard Stark, sem revelar sua identidade. São cenas relativamente pequenas diante da escala geral da produção, mas ajudam a explicar por que o filme consegue sustentar mais de três horas sem depender exclusivamente de batalhas. A viagem no tempo não existe apenas para recuperar objetos. Ela permite que personagens carregados de arrependimentos encontrem, ainda que temporariamente, pessoas e momentos que já haviam perdido.
É nesse mesmo percurso que Ultimato começa a preparar suas despedidas. Natasha Romanoff se sacrifica em Vormir para que Clint consiga obter a Joia da Alma. Tony Stark, que inicialmente rejeita a possibilidade de alterar o passado porque não quer perder a filha e a vida que construiu, decide participar da missão mesmo sabendo que aquilo pode colocar tudo em risco. Steve Rogers continua disposto a assumir a responsabilidade pelos outros, mas sua trajetória aponta para uma conclusão diferente.
Markus e McFeely explicaram posteriormente que enxergavam Tony e Steve percorrendo caminhos quase inversos. Tony começou sua história centrado em si mesmo e gradualmente ampliou sua responsabilidade sobre as pessoas ao seu redor. Steve, por outro lado, começou disposto a sacrificar a própria vida por qualquer pessoa e precisava aprender que também poderia desejar algo para si. Essa lógica ajuda a compreender os minutos finais do filme. Tony termina realizando o maior sacrifício possível. Steve sobrevive e finalmente escolhe viver a vida pessoal que havia deixado para trás.
Antes disso, porém, a Marvel precisava entregar a escala prometida por mais de uma década.


Uma batalha construída tanto nos sets quanto nos computadores
A sequência final de Ultimato é lembrada principalmente pelo que acontece diante da câmera: Capitão América empunhando o Mjolnir, os portais se abrindo, personagens desaparecidos retornando e dezenas de heróis avançando contra o exército de Thanos. Por trás dessas imagens havia uma operação técnica igualmente gigantesca.
Guerra Infinita e Ultimato foram filmados em sequência, o que permitiu que parte da infraestrutura e das equipes de efeitos visuais fosse aproveitada entre as duas produções. Segundo Dan DeLeeuw, supervisor geral de efeitos visuais de Ultimato, os dois filmes envolveram mais de cinco mil tomadas trabalhadas pelas equipes de efeitos. A batalha final exigiu planejamento por meio de pré-visualizações digitais antes mesmo de várias cenas serem filmadas, estabelecendo os principais acontecimentos que precisariam permanecer claros em meio à quantidade de personagens.
O cenário visto na tela também é muito mais digital do que aparenta. DeLeeuw afirmou que aproximadamente 90% do que aparece durante a batalha final foi criado por computação gráfica. As filmagens ocorreram em estruturas relativamente simples, cercadas por telas verdes, enquanto empresas como Weta Digital e Industrial Light & Magic construíram digitalmente o campo devastado, personagens, criaturas, exércitos, efeitos e grande parte da destruição. A Weta ficou responsável por uma parcela importante do terceiro ato, trabalhando desde a destruição do complexo dos Vingadores até momentos como a abertura dos portais e o sacrifício de Tony Stark.
Essa complexidade técnica tinha um objetivo narrativo bastante simples: fazer o público acreditar que personagens vindos de histórias completamente diferentes finalmente ocupavam o mesmo espaço. Pantera Negra e o exército de Wakanda precisavam coexistir com Doutor Estranho e os Mestres das Artes Místicas, Guardiões da Galáxia, tropas de Asgard, Homem-Aranha, Homem-Formiga, Capitã Marvel e os Vingadores originais. O risco era transformar tudo em uma massa de efeitos difícil de acompanhar. Por isso, a batalha foi organizada ao redor de momentos específicos que o público pudesse reconhecer emocionalmente.
Entre eles estava Steve Rogers empunhando o Mjolnir, retomando uma possibilidade sugerida anos antes em Vingadores: Era de Ultron. Pouco depois, quando Steve parece estar praticamente sozinho diante do exército de Thanos, os portais começam a se abrir. A força da sequência não está apenas no número de personagens exibidos, mas no fato de que cada entrada carrega uma história anterior. Wakanda significa Pantera Negra. Peter Parker carrega os acontecimentos de Homem-Aranha. Os Guardiões remetem a uma parte cósmica do MCU que começou separada dos Vingadores. Quando todos aparecem no mesmo campo de batalha, a continuidade construída durante anos deixa de ser uma ideia abstrata e se transforma literalmente em imagem.
Até mesmo a frase “Avengers, assemble”, finalmente pronunciada pelo Capitão América, depende dessa espera. Não seria difícil colocar aquelas palavras em qualquer filme anterior. O impacto está justamente no momento escolhido para utilizá-las, diante da maior formação de heróis que a franquia havia reunido até então.
A escala dos efeitos foi reconhecida também pela indústria. Vingadores: Ultimato recebeu indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais na cerimônia de 2020, com Dan DeLeeuw, Russell Earl, Matt Aitken e Dan Sudick nomeados pelo trabalho. O prêmio acabou ficando com 1917, mas a indicação reforçou a dimensão técnica envolvida na produção.
Quando uma estreia deixa de ser apenas uma estreia
Todo esse investimento não explicaria sozinho o que aconteceu quando o filme chegou aos cinemas. Grandes produções com efeitos sofisticados eram comuns muito antes de Ultimato. O elemento diferente era a quantidade de expectativa acumulada.
A Marvel e a Disney lançaram o filme no final de abril de 2019 sabendo que Guerra Infinita havia deixado uma pergunta gigantesca em aberto. O público queria saber quem retornaria, quem morreria e de que maneira os Vingadores poderiam responder à derrota. Ao mesmo tempo, havia a percepção de que algumas das figuras responsáveis pela construção inicial do MCU estavam se aproximando de suas despedidas. Era continuação, encerramento e celebração ao mesmo tempo.
Os números da estreia mostram a proporção alcançada. Ultimato arrecadou cerca de US$ 1,2 bilhão mundialmente apenas em seu primeiro fim de semana, tornando-se o primeiro filme da história a ultrapassar US$ 1 bilhão já na abertura. A marca do primeiro bilhão foi alcançada em apenas cinco dias. Nos Estados Unidos e Canadá, a estreia definitiva chegou a aproximadamente US$ 357 milhões, enquanto mercados internacionais responderam por mais de US$ 860 milhões naquele lançamento inicial.
O Brasil também participou diretamente desse fenômeno. A estreia brasileira alcançou aproximadamente US$ 26,3 milhões, então um recorde para um fim de semana de abertura no país, e a arrecadação total brasileira registrada pelo Box Office Mojo chegou a cerca de US$ 85,7 milhões.
Nas semanas seguintes, a corrida continuou. Ultimato ultrapassou US$ 2 bilhões mundialmente em apenas 11 dias e, em julho de 2019, superou temporariamente Avatar como a maior bilheteria global da história. Considerando seu lançamento original, chegou a aproximadamente US$ 2,799 bilhões em todo o mundo. Avatar recuperaria posteriormente a liderança após novos relançamentos, mas o feito da Marvel continuou representando algo raro: uma história espalhada por dezenas de horas de filmes havia conseguido atrair público suficiente para competir com os maiores fenômenos comerciais da história do cinema.
É justamente aí que os números de Ultimato passam a dizer algo além de quanto dinheiro o filme arrecadou. A Marvel havia testado durante anos até onde o público estaria disposto a acompanhar uma narrativa compartilhada. Para compreender completamente o peso da morte de Tony, era útil conhecer o homem que apareceu em 2008. Para entender a escolha final de Steve, importava saber o que ele havia perdido em Capitão América: O Primeiro Vingador. Para sentir a dimensão dos portais, era necessário reconhecer quem estava atravessando cada um deles. O estúdio transformou o conhecimento dos filmes anteriores em parte da experiência emocional do novo filme.
Isso também explica por que reproduzir Ultimato é mais complicado do que simplesmente reunir ainda mais personagens. Tecnicamente, é possível construir uma batalha maior, aumentar a quantidade de heróis, elevar o orçamento ou criar um vilão aparentemente mais poderoso que Thanos. O elemento que não pode ser produzido rapidamente é o tempo. Entre Homem de Ferro e Ultimato, passaram-se onze anos durante os quais personagens cresceram, mudaram, fracassaram, desapareceram e retornaram diante do mesmo público.
A própria batalha final funciona porque chega depois desse percurso. Quando Steve Rogers segura o escudo quebrado e se prepara para enfrentar sozinho o exército de Thanos, a cena não depende apenas do que aconteceu nas duas horas anteriores. Ela carrega o jovem franzino que se recusava a fugir de uma briga, o soldado que desapareceu no gelo, o homem deslocado no século XXI, o líder dos Vingadores e o fugitivo de Guerra Civil. Quando Tony Stark toma as Joias e decide utilizá-las, sua escolha também carrega a história do fabricante de armas arrogante que, onze anos antes, havia sobrevivido a uma explosão e começado a perceber as consequências daquilo que produzia.
Por isso, talvez a maior realização de Vingadores: Ultimato não esteja em seus efeitos visuais, nos recordes de bilheteria ou mesmo na quantidade extraordinária de personagens reunidos. Tudo isso contribuiu para transformar o filme em espetáculo, mas sua verdadeira escala havia sido construída muito antes de as câmeras começarem a registrar suas cenas. Durante onze anos, a Marvel ensinou o público a enxergar cada produção como uma história própria e, ao mesmo tempo, como parte de algo maior. Em 2019, conseguiu transformar essa longa relação em um acontecimento coletivo nos cinemas.
Ultimato não encerrou o Universo Cinematográfico Marvel, que continuou crescendo depois dele. O que terminou ali foi uma trajetória específica iniciada quando Tony Stark construiu sua primeira armadura em uma caverna. Quando os créditos finais deram destaque especial aos seis Vingadores originais, o filme reconhecia justamente essa passagem de tempo. O espetáculo podia durar pouco mais de três horas, mas o caminho necessário para que aquelas três horas tivessem aquele peso havia levado mais de uma década para ser construído.
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