The Last of Us: como um jogo conseguiu transformar uma história de apocalipse em algo tão humano

The Last of Us transformou uma história de apocalipse em uma emocionante jornada sobre perda, sobrevivência, humanidade e a relação entre Joel e Ellie.

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Poucos jogos conseguiram fazer o jogador esquecer, por alguns momentos, que estava diante de uma história sobre zumbis, sobrevivência e um mundo destruído. The Last of Us, desenvolvido pela Naughty Dog, fez isso ao colocar no centro da narrativa algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de representar: a relação entre duas pessoas tentando encontrar um motivo para continuar vivendo.

Lançado originalmente em 2013 para PlayStation 3, o jogo apresenta um mundo devastado por uma infecção causada pelo fungo Cordyceps. A sociedade entrou em colapso, cidades foram abandonadas e pequenos grupos de sobreviventes passaram a lutar por recursos. À primeira vista, parecia mais uma história de apocalipse. Mas a proposta da Naughty Dog era diferente.

Em vez de transformar os infectados no principal elemento da aventura, o jogo utiliza o cenário pós-apocalíptico como pano de fundo para contar uma história sobre perda, culpa, confiança e afeto.

Um mundo destruído pela perda

A história começa mostrando Joel, um homem que sofre uma perda devastadora logo no início da pandemia. Anos depois, ele se tornou alguém muito mais fechado e desconfiado, vivendo em uma sociedade onde confiar em outras pessoas pode ser perigoso.

É nesse cenário que Ellie entra em sua vida.

A princípio, Joel recebe a missão de levar a garota até um grupo conhecido como Vaga-lumes. Ellie, porém, não é apenas uma adolescente tentando sobreviver. Ela carrega algo que pode representar uma esperança para a humanidade.

O que começa como uma simples missão de transporte lentamente se transforma em uma relação muito mais profunda.

Joel passa a enxergar Ellie não apenas como uma responsabilidade, mas como alguém que ocupa um espaço emocional que ele acreditava ter perdido para sempre.

O apocalipse fica em segundo plano

Uma das grandes forças de The Last of Us está justamente na maneira como o jogo utiliza o mundo destruído.

As cidades abandonadas, os prédios tomados pela vegetação, os carros enferrujados e os locais completamente silenciosos ajudam a mostrar o que aconteceu com a humanidade sem precisar explicar tudo constantemente.

Enquanto o jogador atravessa esse mundo, encontra pequenos vestígios da vida que existia antes da pandemia: cartas, fotografias, casas abandonadas e objetos deixados para trás.

Esses detalhes fazem o apocalipse parecer menos como um cenário e mais como uma consequência de histórias individuais.

Cada lugar parece ter pertencido a alguém.

Joel e Ellie são o verdadeiro centro da história

O relacionamento entre os dois personagens é o principal motivo pelo qual a história funciona tão bem.

Joel começa tratando Ellie como uma missão. Ellie, por outro lado, tenta encontrar alguém em quem possa confiar.

Conforme os dois enfrentam situações perigosas, a relação muda naturalmente. Eles discutem, fazem piadas, discordam e, principalmente, começam a depender emocionalmente um do outro.

O jogo não precisa transformar todos os momentos em grandes acontecimentos. Algumas das cenas mais memoráveis acontecem justamente durante conversas aparentemente simples.

É essa construção gradual que faz o jogador perceber que a jornada deixou de ser apenas sobre chegar a determinado lugar.

Agora existe algo pessoal em jogo.

Sobreviver não significa continuar sendo humano

Outro aspecto marcante é a forma como o jogo apresenta os próprios sobreviventes.

Em muitas histórias de apocalipse, o perigo vem principalmente dos monstros. Em The Last of Us, porém, os seres humanos podem ser tão perigosos quanto os infectados.

Grupos diferentes possuem seus próprios objetivos, crenças e maneiras de sobreviver. Alguns acreditam que precisam controlar os outros para garantir recursos. Outros enxergam qualquer pessoa desconhecida como uma ameaça.

Isso cria uma pergunta que acompanha o jogador durante toda a aventura:

até onde alguém está disposto a ir para proteger quem ama?

E é justamente essa pergunta que transforma a história em algo muito maior do que uma simples aventura de sobrevivência.

Um jogo sobre escolhas difíceis

A narrativa também evita apresentar respostas fáceis.

Joel e Ellie vivem em um mundo onde praticamente todas as decisões possuem consequências. Não existe uma solução perfeita para todos os problemas.

Essa característica fica ainda mais evidente no final da história, quando Joel precisa tomar uma decisão capaz de mudar completamente o destino dos personagens.

O jogo não tenta dizer ao jogador exatamente como interpretar aquilo.

Em vez disso, apresenta as consequências e deixa que cada pessoa tire sua própria conclusão.

A força está nos pequenos momentos

Talvez o maior segredo de The Last of Us seja justamente não depender o tempo inteiro de grandes batalhas.

Entre confrontos e momentos de tensão, existem conversas, brincadeiras, descobertas e situações silenciosas que ajudam a construir os personagens.

É nesses momentos que o jogador começa a se importar verdadeiramente com Joel e Ellie.

Quando algo ameaça um deles, a reação deixa de ser apenas parte da história. O jogador já criou uma conexão emocional com aqueles personagens.

Por que The Last of Us marcou os videogames?

A importância de The Last of Us não está apenas nos gráficos ou na qualidade técnica. O jogo mostrou que uma produção de grande orçamento poderia utilizar os videogames para contar uma história emocionalmente complexa sem abandonar a interação característica do meio.

A aventura combina exploração, combate e sobrevivência com uma narrativa cuidadosamente construída.

Mais de uma década depois de seu lançamento, sua história continua sendo lembrada justamente porque o apocalipse nunca foi realmente o assunto principal.

Os infectados, as cidades destruídas e os perigos existem para criar o ambiente.

No centro de tudo estão Joel e Ellie.

Duas pessoas que perderam muito, que aprenderam a sobreviver em um mundo quebrado e que, inesperadamente, encontraram uma na outra uma razão para continuar.

The Last of Us não ficou marcado apenas por mostrar como seria o fim do mundo. Ele ficou marcado por mostrar o que ainda poderia existir de humano depois dele.