Por que ainda conhecemos tão pouco o fundo dos oceanos?
Mesmo com toda a tecnologia atual, grande parte do fundo dos oceanos continua desconhecida. Entenda por que explorar as profundezas é tão difícil.
4 min read


Os seres humanos enviaram sondas para outros planetas, construíram telescópios capazes de observar regiões extremamente distantes do Universo e desenvolveram satélites que monitoram praticamente toda a superfície da Terra. Ainda assim, existe uma imensa região do nosso próprio planeta que permanece pouco conhecida: o fundo dos oceanos.
Os oceanos cobrem aproximadamente 70% da superfície terrestre e possuem profundidade média de cerca de 3.682 metros. O tamanho desse ambiente ajuda a explicar por que explorá-lo é uma tarefa tão complicada. Mas a distância não é o único obstáculo. Escuridão, temperaturas muito baixas, pressão extrema e dificuldades de comunicação transformam as grandes profundidades em um dos ambientes mais desafiadores para a tecnologia humana.
E existe uma diferença importante entre mapear e realmente explorar o oceano.
Ainda estamos construindo o mapa do fundo do mar
Satélites permitem obter uma visão geral do relevo submarino, mas não oferecem o mesmo nível de detalhe conseguido por equipamentos que realizam medições diretamente no oceano.
Segundo a NOAA Ocean Exploration, em abril de 2026 apenas 28,7% do fundo oceânico global havia sido mapeado utilizando tecnologias modernas de alta resolução, principalmente sistemas de sonar multifeixe instalados em embarcações.
Isso significa que mais de 70% ainda não havia sido mapeado nesse nível de detalhe.
O número vem aumentando. O projeto internacional Seabed 2030 informou que aproximadamente cinco milhões de quilômetros quadrados de novos dados foram adicionados em apenas um ano até abril de 2026.
Mas existe outro detalhe surpreendente: mapear não é a mesma coisa que observar.
Um sonar pode revelar montanhas submarinas, vales e outras estruturas do relevo. Para conhecer os organismos que vivem nesses ambientes e observar diretamente o que existe ali, porém, são necessárias câmeras, veículos submarinos e diferentes instrumentos científicos.
A NOAA estima que seres humanos tenham observado diretamente menos de 0,001% do fundo do oceano profundo.
É uma diferença gigantesca entre saber aproximadamente como é o relevo de uma região e realmente enxergar o que existe nela.
Quanto mais fundo, mais hostil se torna o ambiente
A partir de aproximadamente 200 metros de profundidade, a quantidade de luz solar diminui drasticamente. Em profundidades superiores a 1.000 metros, a luz do Sol desaparece completamente.
A temperatura também cai. Nas regiões profundas, abaixo de aproximadamente 200 metros, a temperatura média da água fica próxima de 4 °C.
Mas um dos maiores desafios é a pressão.
A pressão da água aumenta aproximadamente uma atmosfera a cada dez metros de profundidade. A 6.000 metros, por exemplo, ela chega a aproximadamente 596 atmosferas.
Equipamentos eletrônicos comuns simplesmente não foram construídos para funcionar nessas condições. Câmeras, computadores, sensores e sistemas de iluminação precisam ser protegidos por estruturas especialmente projetadas para resistir à enorme pressão da água.
Uma pequena falha pode comprometer equipamentos extremamente sofisticados no meio de uma missão.
Nem a comunicação funciona da mesma maneira
Existe ainda um problema que muitas vezes passa despercebido: comunicar-se debaixo d'água é complicado.
As ondas de rádio utilizadas normalmente para transmitir informações não percorrem grandes distâncias através da água. Por isso, explorar o oceano exige soluções diferentes das utilizadas por veículos espaciais ou equipamentos terrestres.
Uma das alternativas são os ROVs, veículos operados remotamente conectados a uma embarcação por longos cabos. Esses cabos podem transmitir energia, comandos e informações entre o robô e os pesquisadores na superfície.
Também existem os AUVs, veículos submarinos autônomos capazes de realizar missões previamente programadas sem permanecer conectados ao navio.
Sonar, câmeras especiais, sensores e diferentes sistemas robóticos permitem investigar regiões que seriam extremamente perigosas ou simplesmente impossíveis de serem alcançadas diretamente por seres humanos.
Mesmo assim, cada expedição consegue estudar apenas uma pequena região diante da imensidão dos oceanos.
Conhecer o relevo não significa conhecer o ecossistema
Imagine descobrir uma enorme montanha utilizando apenas um mapa visto de longe. Seria possível conhecer sua localização, altura aproximada e formato, mas isso não revelaria quais animais vivem nela, quais plantas existem ali ou como aquele ecossistema funciona.
Algo parecido acontece no fundo do mar.
Os mapas do relevo submarino ajudam cientistas a decidir onde realizar futuras expedições, mas somente a observação direta permite estudar detalhadamente os organismos e suas interações.
E ainda existe muito para descobrir.
A NOAA aponta estimativas segundo as quais os oceanos podem abrigar entre 700 mil e 1 milhão de espécies, sem considerar a maior parte dos microrganismos. Aproximadamente dois terços dessas espécies possivelmente ainda não foram descobertos ou oficialmente descritos pela ciência.
Por isso, expedições ao oceano profundo continuam encontrando organismos desconhecidos, novos habitats e formações geológicas pouco estudadas.
Um enorme território desconhecido no próprio planeta
Dizer que “conhecemos mais o espaço do que os oceanos” pode parecer uma comparação impressionante, mas ela simplifica duas formas muito diferentes de exploração científica. Não existe uma medida única capaz de determinar qual dos dois ambientes conhecemos melhor.
O que os dados realmente mostram já é impressionante o suficiente.
Mais de 70% do fundo oceânico ainda não estava mapeado com tecnologias modernas de alta resolução em abril de 2026, e apenas uma parcela minúscula do oceano profundo foi diretamente observada.
A exploração está avançando graças a sonares mais precisos, veículos autônomos, robôs submarinos e projetos internacionais de mapeamento. Mesmo assim, a dimensão dos oceanos faz com que esse processo seja demorado.
Debaixo de quilômetros de água existe um território gigantesco, escuro e submetido a condições extremas. Não está em outro planeta. Está aqui mesmo, na Terra.
E grande parte dele ainda nunca foi vista diretamente por nós.
Fatovivo
Conteúdo feito para informar, entreter e inspirar.
© 2026 Fatovivo-Conteúdo feito para informar, entreter e inspirar.
