Toy Story: o filme que colocou a animação digital à prova e mudou o cinema

Toy Story revolucionou a animação em 1995, conquistou público e crítica e transformou Woody e Buzz em ícones de uma franquia que atravessa gerações.

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Em 1995, uma história aparentemente simples sobre brinquedos que ganhavam vida quando os humanos deixavam o quarto chegou aos cinemas. Por trás de Woody, Buzz Lightyear e companhia, porém, existia uma das maiores apostas tecnológicas já realizadas pela indústria da animação.

Toy Story não foi apenas mais um sucesso infantil. O longa se tornou o primeiro filme de animação totalmente produzido por computação gráfica, apresentou ao grande público uma Pixar que ainda construía seu espaço em Hollywood e mostrou que computadores poderiam ser utilizados para sustentar um longa-metragem inteiro.

A tecnologia garantiu ao filme um lugar na história. Mas ela não explica sozinha por que, mais de três décadas depois, Woody e Buzz continuam reconhecidos por diferentes gerações.

Toy Story conseguiu algo mais difícil: começou como uma experiência sem precedentes e terminou como um clássico.

Uma aposta que ninguém havia levado tão longe

Quando Toy Story começou a ser desenvolvido, a computação gráfica já estava presente no cinema. Produções anteriores haviam utilizado CGI para criar cenas, personagens e efeitos que seriam extremamente difíceis de realizar de outra maneira.

A própria história da Pixar estava ligada a essa evolução. Antes mesmo de existir como a empresa que conhecemos atualmente, o grupo que daria origem ao estúdio trabalhava no desenvolvimento de tecnologias gráficas. Em 1982, integrantes dessa equipe participaram da criação da sequência conhecida como “Genesis Effect”, de Star Trek II: A Ira de Khan, considerada pela Pixar a primeira sequência completamente animada por computador produzida para um longa-metragem.

O salto pretendido com Toy Story era muito maior.

Em vez de utilizar computação gráfica durante alguns minutos, a proposta era construir um filme inteiro dessa maneira. Cenários, iluminação, objetos e personagens precisariam existir dentro de um ambiente digital.

No início dos anos 1990, Disney e Pixar chegaram a um acordo para produzir e distribuir ao menos um longa-metragem realizado por computação gráfica. Aquele projeto acabaria se transformando em Toy Story.

John Lasseter assumiu a direção, enquanto nomes que posteriormente se tornariam fundamentais para a Pixar, como Andrew Stanton e Pete Docter, participaram do desenvolvimento da história.

Era uma oportunidade enorme, mas também uma responsabilidade. Não existia um longa semelhante que pudesse simplesmente servir de modelo.

Computadores eram parte do desafio

Olhar para Toy Story atualmente pode esconder o tamanho da dificuldade tecnológica enfrentada pela equipe.

Os computadores utilizados na produção estavam muito distantes da capacidade disponível hoje. Técnicas modernas de iluminação, reflexos e simulação exigiam um poder computacional que simplesmente não estava disponível de maneira prática para uma produção daquela escala.

O RenderMan, tecnologia de renderização desenvolvida pela Pixar, teve papel importante nesse processo. Segundo a própria empresa, técnicas como ray tracing ainda eram computacionalmente caras demais naquele período para serem utilizadas da maneira que seriam anos depois.

A solução envolvia encontrar maneiras eficientes de simular determinados efeitos visuais e transformar os modelos tridimensionais em imagens que pudessem compor o filme.

Woody e Buzz eram mais importantes do que o CGI

Ser o primeiro longa inteiramente animado por computador poderia colocar Toy Story nos livros de história. Não necessariamente faria dele um bom filme.

A Pixar precisava evitar que o público enxergasse a produção apenas como uma demonstração tecnológica de aproximadamente 80 minutos.

Foi aí que a história ganhou importância.

Woody começa o filme como o brinquedo favorito de Andy e ocupa uma posição privilegiada dentro do quarto. A chegada de Buzz Lightyear ameaça esse lugar. Para Buzz, entretanto, existe outro conflito: ele inicialmente acredita ser um verdadeiro patrulheiro espacial, e não um brinquedo.

A rivalidade entre os dois funciona porque está baseada em sentimentos facilmente reconhecíveis.

Woody sente ciúme e medo de ser substituído. Buzz precisa enfrentar uma crise de identidade ao descobrir que aquilo que acreditava sobre si mesmo não corresponde à realidade.

Quando os dois precisam cooperar, a aventura passa a falar de amizade, aceitação e pertencimento.

É uma característica que posteriormente se tornaria uma das marcas mais reconhecidas das produções da Pixar: utilizar conceitos imaginativos para contar histórias baseadas em emoções bastante humanas.

A própria Pixar, ao revisitar os 20 anos de Toy Story em uma publicação técnica, destacou que a história orientava o desenvolvimento tecnológico, e não o contrário.

Essa filosofia ajuda a explicar por que o filme conseguiu sobreviver à própria revolução que iniciou.

22 de novembro de 1995

Toy Story chegou aos cinemas dos Estados Unidos em 22 de novembro de 1995.

O experimento tecnológico rapidamente se transformou também em sucesso comercial.

Segundo os registros históricos da Pixar, o filme estreou na primeira posição das bilheterias norte-americanas e terminou sua trajetória original com aproximadamente US$ 192 milhões no mercado doméstico. A empresa registra cerca de US$ 362 milhões mundialmente naquele período.

Os números atuais de bilheteria podem apresentar valores diferentes dependendo dos mercados contabilizados e dos relançamentos posteriores. O Box Office Mojo, por exemplo, registra mais de US$ 400 milhões quando diferentes lançamentos do longa são considerados.

Independentemente da metodologia utilizada, o resultado daquele primeiro filme demonstrou algo muito importante para Hollywood: animação computadorizada não precisava ser apenas uma ferramenta complementar.

Ela poderia sustentar uma produção comercial de grande alcance.

Para a Pixar, o momento também foi decisivo. Poucos dias depois da estreia de Toy Story, em 28 de novembro de 1995, a companhia realizou sua oferta pública inicial de ações.

A história da empresa estava mudando praticamente ao mesmo tempo em que seu primeiro longa chegava ao público.

Hollywood reconheceu algo além da tecnologia

O sucesso não ficou restrito às bilheterias.

Toy Story chegou à 68ª edição do Oscar com indicações em categorias que mostravam como o filme havia sido reconhecido para além de sua inovação visual.

A produção concorreu por sua trilha sonora, pela música “You've Got a Friend in Me” e por roteiro original. A indicação ao roteiro teve significado especial: segundo a Pixar, foi a primeira vez que uma animação recebeu esse reconhecimento na categoria de roteiro.

John Lasseter também recebeu um Oscar especial pela realização ligada à criação do primeiro longa-metragem de animação computadorizada.

Era uma confirmação importante.

Toy Story havia chamado atenção pela tecnologia, mas seu roteiro, seus personagens e sua música também estavam sendo reconhecidos.

Essa combinação seria essencial para aquilo que aconteceria depois.

De filme pioneiro a uma franquia mundial

Ser pioneiro não garante permanência.

Muitas obras entram para a história por apresentar determinada tecnologia e acabam sendo lembradas principalmente por especialistas. Toy Story tomou um caminho diferente.

Woody e Buzz se transformaram em personagens extremamente reconhecidos, enquanto a história ganhou novas continuações.

Toy Story 2 chegou aos cinemas em 1999. A evolução tecnológica já era perceptível, mas a franquia continuou apostando principalmente na relação entre seus personagens.

Em 2010, Toy Story 3 levou a história para um momento que atingia diretamente quem havia crescido acompanhando Andy: a despedida da infância.

O filme ultrapassou US$ 1 bilhão mundialmente e chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, além de vencer como Melhor Filme de Animação.

Toy Story 4, lançado em 2019, também superou a marca de US$ 1 bilhão mundialmente.

Uma experiência tecnológica de 1995 havia se transformado em uma propriedade capaz de atravessar décadas.

Filmes, curtas, especiais, produtos, atrações em parques e inúmeras aparições mantiveram aqueles personagens presentes na cultura popular.

Mas existe uma razão mais profunda para essa longevidade.

A animação envelheceu. A história, muito menos

Comparar visualmente o primeiro Toy Story com produções modernas da Pixar deixa evidente quanto a computação gráfica evoluiu.

Iluminação, texturas, cabelos, tecidos, partículas, reflexos e ambientes alcançaram níveis que seriam impraticáveis em 1995.

O próprio Woody se tornou muito mais detalhado ao longo das continuações.

Paradoxalmente, isso torna o primeiro filme ainda mais interessante.

A tecnologia que um dia parecia quase inacreditável inevitavelmente envelheceu, mas os principais conflitos do roteiro continuam compreensíveis.

O medo de Woody de perder sua importância não pertence aos anos 1990.

A descoberta de Buzz de que ele não é exatamente aquilo que imaginava também não depende de computadores ou de uma determinada geração.

Até mesmo a relação de Andy com seus brinquedos trabalha com algo universal: objetos podem acumular lembranças e representar fases da nossa vida.

É nesse ponto que Toy Story deixa de ser apenas um marco técnico.

Se o filme dependesse exclusivamente da novidade do CGI, sua importância provavelmente estaria muito mais ligada à história da tecnologia do que ao público atual.

Mas Woody e Buzz continuaram funcionando depois que animações computadorizadas deixaram de ser novidade.

Quando a revolução se tornou normal

Talvez uma das maiores demonstrações da influência de Toy Story seja justamente aquilo que aconteceu depois dele.

Em 1995, construir um longa inteiro por computação gráfica era motivo suficiente para apresentar o filme como algo revolucionário. Nas décadas seguintes, a animação digital se tornou uma das principais formas de produção de grandes animações comerciais.

A novidade deixou de ser novidade.

Pixar continuou desenvolvendo filmes utilizando a tecnologia, enquanto outros estúdios também avançaram na animação computadorizada. O público passou a encontrar personagens digitais em uma quantidade cada vez maior de produções.

O que Toy Story ajudou a provar como possibilidade acabou se tornando parte normal da indústria.

Essa transformação não significa que a animação tradicional tenha desaparecido nem que Toy Story tenha sido responsável sozinho pela mudança. A história da animação digital envolve décadas de pesquisas, diferentes empresas, artistas e avanços tecnológicos.

O filme, entretanto, ocupa um ponto muito específico nessa trajetória: foi o primeiro longa-metragem inteiramente animado por computador a chegar aos cinemas.

E funcionou.

Muito mais que uma conquista tecnológica

Toy Story poderia ter sido lembrado apenas como “o primeiro”.

Primeiro longa inteiramente produzido em animação computadorizada. Primeiro longa da Pixar. Uma demonstração histórica do que computadores poderiam fazer pelo cinema.

Três décadas depois, essa descrição parece insuficiente.

O filme apresentou Woody e Buzz Lightyear ao mundo, conquistou grandes bilheterias, recebeu reconhecimento da Academia e abriu caminho para uma franquia que acompanharia diferentes gerações.

Mais importante ainda, provou que uma inovação técnica só consegue permanecer relevante quando existe algo por trás dela.

Computadores deram vida aos brinquedos.

Foi a história que fez o público se importar com eles.

É por isso que Toy Story ocupa um espaço tão particular na história do cinema. Quando chegou às telas em 1995, mostrou parte do futuro da animação. Décadas depois, quando aquele futuro já se tornou cotidiano, Woody, Buzz e seus amigos continuam ali.

E talvez essa seja a maior conquista de Toy Story: sobreviver à própria revolução que ajudou a iniciar.

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Isso também ajuda a compreender por que o universo dos brinquedos funcionava tão bem para aquele momento da computação gráfica.

Plástico, madeira, superfícies relativamente rígidas e objetos manufaturados eram mais adequados às possibilidades da tecnologia da época do que tentar construir um longa protagonizado por seres humanos extremamente realistas.

Woody, Buzz e os outros brinquedos não precisavam parecer humanos reais.

Precisavam parecer brinquedos vivos.

Essa diferença foi fundamental.